quinta-feira, 21 de junho de 2012

"Que nunca se junte a tristeza ao nosso nome", Julius Fucik

Viver pela alegria e por ela morrer
«Vivemos para a alegria, por ela fomos para o combate e por ela morremos: Que nunca se junte a tristeza ao nosso nome.» Assim escrevia, a 19 de Maio de 1943, o jornalista comunista checoslovaco Julius Fucik, na prisão da Gestapo na Praga ocupada pelos nazis, onde seria executado no dia 8 de Setembro do mesmo ano. Os seus escritos na prisão, iniciados poucos dias depois da sua captura, dos primeiros «interrogatórios» e brutais torturas foram, após a sua morte, compilados numa obra a que se deu o nome «Reportagem sob a forca» e que as edições Avante! publicaram em 1975, uma vez terminada a ditadura fascista em Portugal.
Escrita em condições extremamente difíceis – com papel e lápis que entrava secretamente na cela –, a obra saiu igualmente de forma clandestina da prisão com a ajuda do guarda Kolinsky, em folhas numeradas e guardadas pela «boa gente checa», como lhes chamou Gusta Fuciková, companheira de Julius Fucik. Foi precisamente Gustina (como Fucik carinhosamente apelidava a mulher amada) que, regressada a Praga, conseguiu reunir as folhas soltas e terminar a última e mais famosa obra do marido.
Obra essa que correu mundo e, como escreve Gusta Fuciková no prefácio à edição portuguesa, «reconfortava tanto os combatentes do Vietname como os de Cuba e da América Latina». O poeta chileno Pablo Neruda, que dedicou um poema ao comunista checoslovaco, afirmou em 1950 no II Congresso dos Defensores da Paz, que «vivemos na época que amanhã se chamará a época de Fucik, época do heroísmo simples… Em Fucik há o sentido não só de um cantor da liberdade mas de um construtor da liberdade e da paz».

Sob a forca

Para além da sensibilidade e coragem revolucionária do autor, e das duras condições em que foi escrito, do livro perpassa a confiança no futuro que Julius Fucik manteve até ao último suspiro de vida. Mesmo quando se encontrava às portas da morte, Fucik nunca duvidou da justeza dos seus ideais e da Vitória próxima dos que por eles lutavam. E nunca deixou de amar a vida.
Após uma sessão de duras torturas, escreve: «Estou a agonizar. Demoraste muito a chegar, morte. Apesar de tudo, esperava conhecer-te mais tarde, daqui a muitos anos. Esperava viver ainda a vida de um homem livre: poder trabalhar muito, amar muito, cantar muito e correr mundo.»

Consciente desde a primeira hora do fim que lhe estava destinado – a morte – nunca vacilou e não denunciou nenhum dos seus camaradas. «Sempre contámos com a morte. Já sabíamos: cair nas mãos da Gestapo quer dizer o fim. E aqui fizemos o que fizemos de acordo com essa convicção. Também a minha obra se aproxima do fim. Não posso descrevê-lo. Não o conheço. Já não é uma obra. É a vida. E na vida não há espectadores. A cortina sobe. Homens: amei-vos. Estai vigilantes!», escreveu, um mês antes da sua execução.
«Mesmo mortos, viveremos num cantinho da vossa felicidade porque por essa felicidade demos a nossa vida. E isso dá-nos alegria…» Assim se despediu da Humanidade que amou e pela qual se bateu até ao fim prematuro dos seus dias – tinha apenas 40 anos.

Um amor imenso

O amor de Fucik pela sua companheira, Gusta Fuciková, revela-se na obra. «Esta noite os nazis levaram a minha Gustina para a Polónia, para “trabalhar”. Para a escravidão, para a morte pelo tifo. Restam-me algumas semanas, talvez dois ou três meses de vida (…) Esta reportagem já não será completada. Se durante estes dias tiver possibilidade, procurarei continuá-la. Hoje não posso. Tenho a cabeça e o coração cheios de Gustina, essa mulher nobre, companheira tão querida, fervorosa e abnegada na minha vida insegura e nunca tranquila.»
Em tempos difíceis, de clandestinidade, prisão, tortura e separação, nunca os seus corações deixaram de bater em uníssono e nunca a ternura deixou de guiar as suas vidas.
O episódio do último encontro revela os sentimentos que os uniam e a sua grandeza moral. Depois de torturarem violentamente Fucik – e de não lhe arrancarem uma palavra –, os nazis usam Gusta como ameaça. O chefe da secção da Gestapo advertiu: «Tem uma hora para reflectir. Se passado este tempo aquela cabeça teimosa não ceder, são fuzilados esta tarde. Os dois.» A resposta não podia ser mais digna: «Senhor comissário, isso para mim não é uma ameaça. É o meu último desejo. Se o executarem a ele, executem-me a mim também.» Fucik levou orgulhosamente consigo esta imagem e deixou-a fixada na sua obra. «Ei-la. Esta é Gustina: amor e firmeza. Podem tirar-nos a vida, não é verdade, Gustina? Mas nunca a nossa honra e o nosso amor.»
Mais do que um livro histórico, «Reportagem sob a forca» é uma obra que exalta os mais puros sentimentos humanos: o amor, a alegria, a dignidade, a coragem, a confiança no futuro, a luta por um mundo melhor. A sua leitura é, hoje, obrigatória
 
Nota de tripalio: hoje apeteceu me por este post, no dia da vitória da selecção portuguesa aos checos, uma homenagem a um checoeslovaco

Nenhum comentário:

Postar um comentário